As motocicletas vêm, ao longo do tempo, ocupando as ruas das principais cidades brasileiras. Um meio de transporte rápido, que evita as filas de trânsito, facilita o deslocamento e o estacionamento e é mais fácil de ser adquirido. Entre 1990 e 2011, as vendas no Brasil alcançaram a marca de 2,1 milhões de unidades. No mesmo período, o faturamento do setor ascendeu de US$ 741 milhões para cerca de US$ 8,7 bilhões. Mais de 24,3 milhões de motos circulam pelo Brasil, de acordo com dados do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) de 2015, equivalente a 29% de todos os veículos em circulação no país. 
Mas o aumento da frota e o sucesso comercial trouxeram uma trágica estatística. Somente entre os anos de 2000 e 2012, mais de 220 mil pessoas morreram no Brasil e 1,6 milhão ficaram permanentes inválidas em razão de acidentes de trânsito, segundo levantamento da seguradora Líder, responsável pelo DPVAT (seguro obrigatório). Dados do Ministério da Saúde de 2015 mostram que, em dez anos, o número de mortes provocadas por acidentes de moto aumentou 280%. São 12 mil vítimas por ano. Esse tipo de ocorrência foi responsável por um aumento de 115% no número de internações em hospitais públicos. Por ano, elas custam quase R$ 30 milhões para o SUS (Sistema Único de Saúde). 
Em 2014, apenas em São Paulo, 20 mil motociclistas foram parar nas salas de cirurgia. Atualmente, 19% da frota de veículos da capital paulista é composta por motos, sendo que 74% dos pedidos de indenização por morte ou invalidez no trânsito foram por acidentes com motocicletas. Outro dado mostra que, entre 2011 e 2014, quando o governo federal adotou a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para a indústria automotiva, o número de acidentes anuais de motos saltou de 194 mil para 497 mil – alta de 156% em todo o país. 
Para tentar entender essa tragédia, foi lançado, neste mês, o livro Risco no Trânsito, Omissão e Calamidade – Impactos do Incentivo à Motocicleta no Brasil. De autoria do engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcellos, especialista na análise de dados sobre o trânsito nas cidades e assessor da ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos), o livro aborda os impactos que a entrada da motocicleta causou no trânsito brasileiro, principalmente o acréscimo de acidentes e de mortes.
 
Em entrevista à Agência CNT de Notícias, Eduardo falou sobra o problema que está levando a vida de milhares de brasileiros. 
Houve uma falta de preparação para a inclusão da motocicleta no Brasil?
Sim, e isto foi agravado pela vulnerabilidade inerente aos usuários de motocicletas (semelhante ao que acontece com os ciclistas). Tanto os pretendentes a usar a motocicleta quanto os demais participantes do trânsito não foram adequadamente capacitados a dividir o espaço viário de forma segura. A capacitação dos motociclistas foi primária e os demais participantes do trânsito não foram avisados sobre a entrada em cena de outro veículo no trânsito, rápido e difícil de localizar pelos espelhos retrovisores dos automóveis, ônibus e caminhões. Pedestres e ciclistas igualmente foram ignorados em relação ao alerta sobre a presença do novo veículo e as cautelas requeridas.
Cerca de 220 mil pessoas morreram e 1,6 milhão recebem indenização por invalidez permanente. Como estancar essa sangria?
Em todo processo de introdução de um novo produto na sociedade, que tem algum potencial de dano às pessoas (remédios, ferramentas, brinquedos infantis, equipamentos, veículos), se nada for feito para alertar as pessoas, ocorrerá um grande número de acidentes durante algum período (normalmente vários anos), até que a quantidade de acidentes comece a diminuir, seja por ação das pessoas, seja por ação do governo. Este período é (de forma infeliz) chamado de “curva do aprendizado”. No caso da motocicleta no Brasil, essa curva trágica ainda é ascendente e foi agravada pela precariedade da fiscalização. Se nada for feito, a curva, um dia, começará a regredir, deixando como resultado um número de vítimas ainda maior do que o já registrado. A única forma de fazer a curva regredir, já, é adotando procedimentos radicais na área da circulação das motos, dos equipamentos de segurança, da velocidade do trânsito, da capacitação dos motociclistas e das pessoas em geral, e da fiscalização. 
Como preparar as cidades para a convivência com a motocicleta?
A fragilidade inerente aos usuários de motocicletas torna difícil encontrar formas seguras de circulação em um ambiente de trânsito de velocidades altas e presença de grandes veículos. Não é à toa que em todas as sociedades a periculosidade no uso da motocicleta (mortes por cem mil quilômetros rodados) é a maior dentre todas as formas de transporte. A experiência internacional mostra que a segurança dos usuários de motos só melhora quando a velocidade do trânsito é moderada, os usuários são bem treinados e usam capacete e roupas apropriadas e a motocicleta não fica muito exposta à circulação de veículos grandes. 
Nossos motoristas estão preparados para conviver com o motociclista?
Nenhum dos participantes do trânsito foi bem preparado para que as motocicletas fossem incluídas nas vias. Um aspecto muito grave é que os condutores de veículos pesados têm grande dificuldade de perceber a aproximação de uma motocicleta. Em muitos locais, o pavimento é de péssima qualidade, colocando em risco os usuários de motos. 
A circulação das motos entre os carros aumenta o risco de acidentes?
Sim. Relatório da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de São Paulo (Boletim Técnico 53, 2012), que estudou 249 colisões fatais de motocicletas, mostrou que mais de um terço ocorreu por colisão lateral, típica do tráfego das motos entre filas de veículos.
Como reduzir o número de acidentes?
É preciso, do ponto de vista institucional, um grande esforço de capacitação dos usuários de motos e dos demais usuários das vias, e um grande esforço de fiscalização do uso das motos (em algumas regiões do país mais de 50% dos motociclistas não têm carteira de habilitação). Do ponto de vista técnico, a motocicleta deve circular a velocidades moderadas (por exemplo, 30 km/h em vias locais e no máximo a 50 km/h em vias de grande tráfego) e deve ser mantida afastada de veículos de grande porte. 
 
Fonte: Agência CNT de Notícias
Artigos Relacionados
Leia mais em Notícias
Comentários estão fechados

Veja também

Novo DAF XF ganha cor laranja e amplia opção de customização do modelo

Aurora Orange completa a gama de 13 cores disponíveis para o extrapesado O novo DAF XF, la…