*Edmilson Moutinho dos Santos
 
 
Nos últimos dias, milhares de brasileiros foram impactados com o aumento dos preços combustíveis. Consequentemente, o custo do transporte elevou-se e se adicionou às pressões inflacionárias já presentes na economia. O consumidor não pode mudar a história, mas pode buscar alternativas. O cenário poderia ser diferente se o GNV (Gás Natural Veicular) fosse mais difundido e se esse segmento de uso final do gás não tivesse sido tão prejudicado por políticas equivocadas ao longo da última década. 
 
Mais barato, e com apelo muito mais sustentável, o gás é a melhor opção nos quesitos economia, desempenho, sustentabilidade e disponibilidade. Uma pesquisa da Associação dos Rádio Taxistas de São Paulo (ARTASP) comprovou que o GNV proporciona uma economia de 61% frente a gasolina e 59% em relação ao etanol. Para utilizar o GNV é necessário instalar o "kit gás" e o retorno do investimento de um sistema ocorre, em média, até 10 meses para um automóvel de uso particular que rode três mil km/mês. O investimento é pago pela própria economia gerada pelo sistema a gás.
 
O governo acredita que o reajuste nos preços dos combustíveis entusiasmará o mercado de GNV. Se para alguns motoristas o aumento do preço dos combustíveis afetou diretamente no orçamento, aqueles que possuem o sistema de GNV instalado no carro seguem a sua rotina, sem impacto no bolso, pois o gás não entrou na lista dos combustíveis reajustados e desponta como uma das melhores opções.
 
No entanto, até o momento, o mercado de GNV, em seu agregado, permanece desanimado. O consumidor parece estar bem frustrado e se tornou mero coadjuvante nessa história. O consumo nacional de GNV caiu 3% de janeiro a setembro deste ano, comparado a igual período de 2013, segundo a Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás). Com as dificuldades financeiras crescentes do Estado, a agenda política dificulta o estabelecimento de incentivos fiscais sobre o gás ou sobre os kits de conversão, que poderiam contribuir para reverter o processo de queda da demanda.
 
Ademais, os mitos negativos sobre o uso do GNV permanecem e há quem ainda acredite que o uso do energético deteriora o veículo. Os consumidores desconhecem os benefícios do gás principalmente com a adoção das melhores tecnologias. Os novos kits, como aqueles de 5º geração, liberam menos sujeira na combustão, podendo aumentar a vida útil do motor e os períodos entre as manutenções.
Na ausência de políticas consistentes e um planejamento estruturado do mercado de combustíveis no Brasil, a iniciativa privada é quem está encontrando soluções para viabilizar o GNV. Em 2006, a Fiat lançou uma versão do Siena equipada com motor Tetrafuel capaz de funcionar com quatro combustíveis diferentes – gasolina, gasolina misturada (até 25% de etanol), etanol e GNV. Trata-se de possibilitar mais economia e confiabilidade na instalação do equipamento feita diretamente na fábrica, mantendo a garantia da montadora. Na outra ponta, as concessionárias de gás seguem investindo em suas redes e na expansão da logística, aumentando a disponibilidade do energético em postos de combustíveis.
 
Houve também o lançamento de programas de incentivos para qualificar as empresas convertedoras que realizam a instalação dos kits. A Comgás, maior distribuidora de gás natural canalizado do país, por exemplo, criou, em 2007, o Programa 10, que certifica a qualidade das instaladoras de GNV, com emissão de um Selo de Qualidade para a instaladora que cumpre uma série de pré-requisitos de qualidade e segurança. A emissão do Selo é realizada pelo CTGÁS (Centro de Tecnologias do Gás, que é um consórcio entre o Senai e a Petrobras). O  Programa 10 também tem o apoio da ABGNV (Associação Brasileira do Gás Natural Veicular). Essas iniciativas, certamente, contribuem para a tomada de decisão dos motoristas e resgatam a credibilidade do GNV no mercado brasileiro.
 
* Edmilson Moutinho dos Santos é Professor Associado do Instituto de Energia e Ambiente da USP
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