Ir a uma oficina mecânica ainda é, para muitas mulheres, uma experiência marcada por insegurança. O diagnóstico que não se entende, o termo técnico que intimida e o orçamento que parece alto demais. Mas como questionar sem saber o que está errado?
O desconforto enfrentado por muitas mulheres em oficinas mecânicas está longe de ser um caso isolado, ele faz parte de um contexto mais amplo de desigualdade de gênero que ainda persiste em diversas esferas da sociedade. Segundo o Relatório Global de Disparidade de Gênero 2025, do Fórum Econômico Mundial, a equidade entre homens e mulheres deve levar cerca de 123 anos, o equivalente a cinco gerações, para ser, efetivamente, uma realidade em todo o mundo.
“A desigualdade que ainda existe no mercado de trabalho, na remuneração e no acesso a posições de liderança tem um reflexo direto no dia a dia, inclusive na hora de levar o carro à oficina. Quando a mulher não tem informação, ela fica vulnerável. E a vulnerabilidade, em qualquer ambiente, tem um custo”, afirma Vittória Gabriela, engenheira mecânica e fundadora do Dona do Meu Destino, uma comunidade criada para ajudar na forma como as mulheres se relacionam com o próprio carro.
Conteúdos sobre mecânica, manutenção e segurança são repassados de forma simples e acessível a mais de 892 mil seguidores, sendo mais de 90% mulheres. Alguns vídeos produzidos pela iniciativa já ultrapassam 4 milhões de visualizações.

“Cada vez mais mulheres chegam até nós querendo entender o próprio carro. Não para virar mecânica, mas para não depender de ninguém para tomar uma decisão. Para se ter uma ideia, mais de 3.500 mulheres aguardam uma vaga nos cursos presenciais, um indicativo de que existe uma demanda crescente por conhecimento nessa área”, conta.
Segundo Vittória, houve uma mudança clara no perfil das participantes ao longo do tempo. “No começo, a maioria chegava depois de um problema, um mau atendimento, um susto na estrada, um prejuízo. Hoje, muitas vêm por escolha, para aprender antes que qualquer problema aconteça. Sai do ‘preciso me defender’ para ‘quero dominar isso. Elas entenderam e que tem informação tem poder de escolha, e poder de escolha é autonomia”, afirma.


Para ela, entender o mínimo sobre o carro muda completamente a postura diante de uma oficina. “A mulher passa a questionar, a pedir explicações e a não aceitar qualquer diagnóstico sem entender”, diz.
Com base nas dúvidas mais frequentes, Vittória reuniu cinco orientações práticas para evitar problemas na hora de levar o carro para manutenção:
1 . Peça explicações claras e, se possível, veja a peça
Diagnósticos vagos devem ser questionados. Pergunte o que está acontecendo, por que a troca é necessária e peça para ver a peça danificada. “Se não consegue explicar de forma simples, é um sinal de alerta”, afirma.
2 . Evite decidir sob pressão
Frases como “precisa trocar agora” podem gerar uma urgência desnecessária. Sempre que possível, busque uma segunda opinião antes de autorizar serviços mais caros.
3 . Pesquise preços antes de ir à oficina
Ter uma noção básica de valores de peças e serviços ajuda a identificar cobranças fora da realidade e dá mais segurança na hora de aprovar um orçamento.
4 . Desconfie de diagnósticos amplos demais
A indicação de múltiplas trocas sem explicação consistente é um dos relatos mais comuns. “Às vezes, o problema é simples, mas vira um orçamento alto porque a cliente não tem referência”, explica.
5 Comece pelo básico: conhecimento evita prejuízo
Entender sinais do painel, reconhecer barulhos incomuns e conhecer a função de itens essenciais já reduz a vulnerabilidade. “Não é sobre virar mecânica, mas sobre não ficar vulnerável”, resume.
História da Comunidade
Além das suas quase um milhão de seguidoras, a iniciativa da comunidade Dona Meu Destino também ganhou força nas redes sociais.
Em 2026, a comunidade realizou três turmas presenciais do curso de mecânica básica para mulheres, reunindo cerca de 100 participantes em cada edição, totalizando 300 mulheres atendidas. A proposta agora é expandir.
“Queremos aumentar a frequência, levar para outras cidades para alcançarmos ainda mais mulheres. Além de novas edições em São Paulo, a ideia é levar o projeto para cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte, por meio de parcerias com marcas que acreditam no acesso à informação como ferramenta de independência e segurança feminina”, conta.
O interesse crescente, segundo ela, mostra que existe uma demanda reprimida. “Por muito tempo, o universo automotivo foi tratado como ‘coisa de homem’. Quando você cria um espaço sem julgamento, as mulheres entram. A barreira nunca foi capacidade, sempre foi acesso e acolhimento”, diz.
Contudo, a inclusão plena das mulheres ainda é um desafio estrutural, econômico, social e cultural, explica a engenheira. “Mas é no aprendizado do dia a dia, que esse cenário começa a mudar. Quando uma mulher entende o que está acontecendo com o próprio carro, ela não ganha só conhecimento técnico, ela ganha voz. E uma mulher com voz se posiciona melhor na oficina, no trabalho, em casa, em qualquer lugar”, conclui Vittória.
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